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domingo, 15 de junho de 2008

Quotidiano

O trem corre veloz pelos trilhos. As pessoas prensadas dentro de seus vagões, vão e vem ao sabor das curvas. De repente uma frenada! Todos vão e voltam de forma brusca! Um senhor que não conseguiu se segurar, pois os canos que servem para que os passageiros se segurem, estão todos tomados, e o pobre homem só não é arremessado longe, porque os corpos que o cercam, lhe seguram. Ele poderia estar sentado nos bancos cinzas que são de uso preferencial, mas todos estão tomados. No mais próximo a ele, estão sentados uma menina de no máximo 18 anos, fone no ouvido e manuseando um celular e no outro um rapaz com cara de poucos amigos, agarrado a uma mochila, daqueles que estão mais preocupado no seu bem estar do que no restante.

Aliás, isso é um capítulo a parte, a capacidade dos paulistanos de se preocuparem apenas com suas vidas. Pode ter uma pessoa estrebuchando, babando a sua frente e ninguém lhe dá a menor atenção.

- Dane-se ele! Deve de ta bêbado

- Por que essa raça não volta pra terra deles, porra!

- Putz, mais um??? É todo dia agora, é??

- Humpf! Isso é Brasil! O rapaz passando mau e ninguém faz nada!

Nesse último comentário, a pessoa que o proferiu só olhava e nada fazia. Um dos poucos preocupados com a situação se revolta "Ta, isso é brasil e vai continuar sendo brasil, cacete???" Por que então ninguém toma uma providência e o brasil deixa de ser brasil, para se tornar um Brasil melhor???? E sai correndo atrás de um segurança e quando encontra um pede algum tipo de providência e ouve essa como resposta "eu não sou médico, não posso fazer nada". Essa doeu!

Alguém de repente lembra em chamar a emergência 193. Ninguém encotra os seguranças (Claro que não, hoje não é dia de jogo) e quem consegue falar com a emergência nada consegue, pois a telefonista acha que é trote e manda a pessoa pastar.

Enfim, aparecem dois seguranças do próprio metrô e socorrem o rapaz que aos poucos vai se recuperando. Devido a "mistura de álcool e remédios ele teve uma convulsão, mas passa bem", diagnostica o segurança-médico.

Fim de espetáculo, roda desfeita, todos retomam suas vidinhas. E o brasil continuou sendo brasil mesmo.

Dentro do trem, ouve-se a voz do condutor: "Estação Sé, acesso a linha azul, desembarquem pelo lado esquerdo do trem". A esse aviso, quem vai desembarcar, já esta de pé, se juntando a outras centenas de pessoas, que se amontoam nas portas. O abrir da porta, equivale ao sinal verde do trânsito. Já! Foi dada a largada! Rapidamente, escadas rolantes e acessos à outras linhas são tomados pelo imenso formigueiro humano. Pessoas indo e vindo feito baratas tontas, correndo. E por que correm? Correm porque tem medo! Mas medo do que? De chegarem atrasadas, de perderem o horário, de perderem o emprego que provém o sustento, sei la, correm e sentem medo, xingam, empurram, querem ser os primeiros, os mais espertos a se desvencilharem dos outros. De prêmio ganharão um nada com louvor.

Medo, pressa, ansiedade, as pessoas são movidas por esses sentimentos e atitudes.

Mas será que, além disso, eles não sentem mais nada? Solidariedade, compaixão, a vontade de se doar por alguém que precisa de ajuda? A resposta talvez seja não. Não há tempo para isso.

Todos nós somos escravos do tempo. Hora de acordar, de tomar banho, se vestir, engolir um café (quando tem) e sair pra rua. Pegar ônibus, metrô, andar mais 150m, chegar ao destino, trabalhar 8 horas por dia e voltar pra casa, no mesmo ônibus, no mesmo trem e andar os mesmos 150 m até em casa.

Para as mulheres, há uma sobrecarga de responsabilidade. Correm de volta, porque há o jantar a ser feito, a roupa pra ser lavada, a casa pra ser cuidada, os filhos para serem educados. Tudo com tempo cronometrado, e se sobrar um tempo, da uma olhadinha na novela ou ler aquele livro que pegou emprestado de um colega e que ela nem abriu ainda. Com um pouco de sorte, sobra tempo, mesmo que pouquinho, de ler os emails que chegaram ou conversar com alguém por um comunicador on line. Abençoada internet!

É tanta coisa para fazer e para pensar, que não temos tempo de olhar para o lado e ver que há um outro ser humano, talvez com os mesmos problemas, as mesmas preocupações, as mesmas dificuldades. Estamos tão individualistas, que não nos apiedamos de uma pessoa dormindo na rua, aliás, essa pessoa pode estar morta. Estaremos tão preocupados com a nossa correria que não teremos tempo para reparar nisso, "é só mais um entre tantos"! "Dane-se, deve de ta bêbado"! O individualismo é tanto, que nem os moradores de rua, que podem ir para um abrigo público, não o fazem, preferem dormir ao relento das praças, por temerem que, enquanto dormem, outros roubem os poucos pertences que possuem!

Amanhã vai começar tudo de novo. Nada mudará. E o Brasil continuará sendo brasil.

3 comentários:

María del Carmen disse...

Oi amigo, gostei do que vc escreveu, e me lembrei da correria do metro, bom por aqui a coisa nao é muito diferente, em algumas coisas só muda o pais, a preocupaçao nº1 é sempre o dinheiro, e o egoismo é cada vez mais a forma de viver da maioria, é bom ler as tuas palavras ainda que seja só pra parar e pensar um momento, já é um bom começo. Bjus.
MARI

Olyvia Character disse...

Nisso tudo, repito o comentário anterior e resalto, pobres das periferias do Brasil, pobres das favelas... Parem de fazer filhos, olha só a merda que dá!!!
Acima de tudo falta humanismo e respeito, mas cada um pode fazer sua parte no final...

Gabriela B Coutinho disse...

Bom, gostei do seu texto e realmente, pela preguiça de muitos o Brasil continua sendo um "brasil" e pior quando estes seres falam de outros países, ou resolvem bancar os politizados falando mal dos políticos, qual a diferença entre um político ladrão e o cara que sonega impostos entre outros?
Nenhuma, o impacto que causam na sociedade tem diferença sim mas o mecanismo corrupto é o mesmo.
Beijos